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Cuba, os dois lados de uma polêmica história

Em poucos minutos andando pela cidade velha em Havana, parecia que tínhamos voltado à década de 1950. Eram carros antigos para todos os lados e uma arquitetura tão peculiar que mistura o charme europeu com a bagunça de um cortiço. 

A cidade de Havana é como um museu a céu aberto, um dos lugares mais fotogênicos do mundo. É tão peculiar que optamos por ficar 9 dias por lá, e conhecer um pouco do modo de vida cubano. E falando em modo de vida em Cuba, esta história tem dois lados. O lado dos turistas e estrangeiros que visitam o país e o lado da população.

A divisão começa com a moeda local.  Há duas moedas no país, os pesos convertíveis (CUC) para turistas (1 CUC equivale 1 US$) e a moeda nacional (MN) utilizada pela população (1 CUC equivale a 25 MN). Para os estrangeiros que visitam o país tudo é mais caro obviamente, mas, mesmo assim, não é um absurdo. Já para os cubanos a diferença entre as moedas fazem com que a população não tenha acesso ao que oferecido para os turistas.

Falando de alimentação por exemplo, é possível ter uma ótima refeição completa em um restaurante de médio porte por 10 CUC ou US$ 10. Já para a população local, é praticamente impossível ter acesso a este tipo de refeição, pois na moeda nacional significaria gastar 250MN.  

E porque esse valor é tão absurdo para eles? O salário médio da população é cerca de 25 CUC ou 625 MN por mês, há aqueles que chegam a ganhar 40CUC ou 1000 MN, o que é considerado um ótimo salário. Para dar uma base comparativa, um sanduiche para os locais custa em média 10MN, um sorvete custa 5. Já deu para entender o tamanho do problema, né?

Para conseguir uma renda extra as pessoas abrem pequenos negócios, por mais improvisado que seja. Abrem a janela da sala de sua casa e vendem café, sanduiche de presunto e queijo, doces variados e até pizza. Em Havana velha em todas as ruas, ao lado dos restaurantes e bares para turistas há pequenas “cafeterias” dentro da casa das pessoas. É muito comum por lá.

Como ter um taxi é muito caro e controlado pelo governo, eles inventaram uma outra forma de ganhar um dinheirinho: o “bicitaxi”, uma bicicleta adaptada com duas cadeiras atrás que serve como taxi de pequenas distâncias para os locais, e como “ônibus turístico” para os estrangeiros. Os motoristas de bicitaxi oferecem tours pela parte velha da cidade com explicações sobre a história de cada local e custa 5 CUC por pessoa por hora. Para os estrangeiros, uma ótima forma de conhecer a cidade gastando pouco.

O contraste desse paradoxo social se estende pela vida noturna agitada da cidade. Para os turistas há diversas casas de show, não faltam bares com música ao vivo em qualquer esquina. Para quem gosta de um bom drink, não passa uma noite sem beber um Mojito ou um Daiquiri, que custam aproximadamente 3 CUC cada. O Mojito mais famoso é o do bar chamado Bodeguita del Medio, e o Daiquiri tradicional, no bar El Floridita. Ambos conhecidos por serem frequentados por personalidades como Ernest Hemingway e Fidel Castro.

Enquanto isso a população local se diverte em festas de quintal com música alta e rum comprado no boteco da esquina. Há alguns bares escondidos que só os locais conhecem, onde podem beber drinks bem mais baratos pagando com a moeda nacional. Os bares e casas de show para turistas praticam preços muito altos e inacessíveis para maior parte da população.  Muitos músicos vivem das gorjetas que recebem nestas casas de música ao vivo.

E ai vem a parte mais curiosa sobre Cuba que instiga a curiosidade de quem vai visitar o país. Com tanta restrição à liberdade, como eles vivem? Eles são felizes? Como o salário de apenas 25 ou 40 dólares paga as contas no final do mês?

Não tenho a resposta para todas estas perguntas, mas é importante colocar alguns pontos. Os serviços básicos como educação e saúde são oferecidos gratuitamente pelo governo e são de ótima qualidade. Cuba é conhecida pelo seu excelente sistema de saúde e atrai até pessoas de outros países que procuram tratamentos específicos. Apesar de haver controversias quanto a este tema, vale dizer que a população reconhece a qualidade de seu sistema público de saúde. 

O seu sistema de Educação também é motivo de orgulho para o país. Cuba é o único país da América Latina e Caribe a alcançar todos os objetivos mensuráveis de educação, segundo Relatório da Unesco em 2015. 
Falando sobre a estrutura do país, tenho que confessar que a qualidade das casas em geral são um pouco assustadoras.  Tudo muito velho e às vezes caindo aos pedaços, literalmente. Mas por outro lado não vimos sem tetos ou moradores de rua.

O custo do supermercado para os cubanos é barato, mas também limitado. É comum haver períodos de falta de algum produto. Afinal, tudo controlado pelo governo. Frutas e vegetais são mais caros enquanto sanduiches de presunto e queijo têm em abundância em qualquer esquina. Ficamos na casa de uma família cubana e eles nos pediram para da próxima vez trazermos produtos de higiene básica como sabonete, shampoo e condicionador.  O acesso a este tipo de produto é limitado e sua qualidade é muito ruim.

Continuando nesta dualidade de sentimentos quando pensamos no modo de vida cubano, vale mencionar um pouco do dia a dia das pessoas em Havana. A vida cotidiana da população está nas ruas: crianças brincando, jovens praticando esportes e vizinhos conversando em suas janelas. A televisão é luxo por aqui. E eles adoram isso, conversando com os cubanos, muitos nos contaram histórias de amigos que tiveram a oportunidade de sair do país e acabaram voltando porque valorizam esse modo de vida onde a família é o alicerce da vida e o contato e a troca com as outras pessoas enriquecem o seu dia a dia.

É interessante ver os costumes do passado que já não existem mais na maioria dos países. São os mercados locais com vitrines e não com as tradicionais gôndolas de supermercado, pessoas que vendem de tudo na janela de suas casas, teatro de fantoches na rua para entreter as crianças, rodas de amigos jogando dama ou dominó, os carros antigos que se transformaram nos taxis mais populares da cidade, e casas com portas abertas, escancaradas!

No entanto, Havana também tem graves problemas com a falta da tecnologia ou do avanço do mundo moderno. A poluição na cidade é altíssima, fruto do elevado número de carros antigos. É comum ver vazamento de óleo nas ruas e carros quebrados abandonados. Algumas construções são tremendamente antigas e há prédios literalmente caindo aos pedaços, varandas quebradas que podem ser perigosas para pedestres nas calçadas. Várias ruas totalmente esburacadas enquanto os prédios do governo brilham com a pintura nova ou estão sendo reformados. Difícil explicar esta distribuição de recursos, mas nós brasileiros, mesmo sem adotarmos o comunismo, sabemos bem como é isto.

Com a abertura dos embargos em relação aos Estados Unidos provavelmente a cidade de Havana como conhecemos está com os dias contados. Só espero que o mundo moderno não devore todos os costumes de um povo que valoriza a palavra, o contato, o simples, e o artesanal. São coisas raras nos dias de hoje.

Referências:
http://educacao.uol.com.br/noticias/2015/04/08/so-cuba-atinge-objetivos-globais-de-educacao-na-america-latina-diz-unesco.htm
http://oglobo.globo.com/cultura/a-saude-em-cuba-15245848

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